"PEQUENO MANIFESTO" é uma grande manifestação do interno. Enquanto infernos nascem da demonização dos múltiplos meios de ação, a descomunicação humana comunga comportamentos animalescos, e camundongos no cio reproduzem muitos views e vias para o voyeurismo mercadológico.

Luan Boré

Ricardo Franco MAB (28)
Ricardo Franco MAB (10)
Ricardo Franco MAB (20)
Ricardo Franco MAB (2)

Se o século XX foi marcado, dentre outros grandes inventos humanos, pelo surgimento do processamento de dados, da inteligência artificial e da internet, em que computadores alcançam uma velocidade de processamento maior do que de corpos físicos, o século XXI em suas primeiras décadas, vem sendo marcado, dentre outras grandes mudanças, pela revolução na comunicação através do Big Data (conjunto de dados usados também para decifrar comportamentos humanos), no qual os Smartphones e computadores pessoais se tornaram uma espécie de decodificadores da “genética da mente”. 

 

Tais dados se tornaram uma ferramenta poderosa de controle dos indivíduos. Eles são utilizados por grandes empresas da área de tecnologia da informação para oferecer todo e qualquer tipo de conteúdo do seu interesse através de algoritmos próprios. Dessa forma, cria-se a possibilidade de direcionamento, individualizado, do teor do conteúdo que lhes é conveniente. A partir daí, o conteúdo pode ser utilizado desde a publicidade até prováveis interferências políticas em eleições de grandes potências econômicas e militares internacionais, como vem sendo noticiado nos últimos meses.

 

Sendo assim, o uso destas tecnologias, ao mesmo tempo em que nos possibilita enormes benefícios, camuflam através de termos de uso e privacidade e linguagem (às vezes subliminares), artifícios de armadilha, de persuasão e controle social que passam despercebidas diante de grande parte da população mundial. Diante desta realidade, Ricardo Franco apresenta obras atuais e produções anteriores que se estabelecem dentro do contexto de armadilhas, instrumentos de caça camuflados que oferecem algum tipo de vantagem ou iscas para capturar algo. O uso de armadilhas como artifício tem relação analógica com o consumo, os meios de comunicação e suas esparrelas. Ao se apropriar destes objetos e de outros símbolos, o artista faz o uso da linguagem de forma objetiva e direta, levando o fruidor a pensar nestas relações de comunicação implícitas do mundo contemporâneo.

 

Vinícius S.A

Curador

PEQUENO

MANIFESTO

 

Quando fui em direção ao roteiro perfeito,

fui em direção ao texto em branco,

em direção ao final feliz,

 

desmoronei.

 

Tinha os meus olhos surrados,

a minha face sonsa, insossa

a cara dura, a cor de pele,

o limiar dos meus pelos...

 

Quer mesmo assistir verdades?

E se eu contar que fui eu quem colei?

Quer mesmo cometer atos de pena?

E se eu disser que tive a chance de perder o controle?

 

Então, se

devore, se

engasgue, se

estranhe, se

aceite, se

abrace.

 

É preciso construir armadilhas para o nosso próprio bem:

 

Ser ratoeira em tempos de guerra interna.

Poesia

Camila Jatobá

 
 

Sempre que se quer juntar dois animais domésticos de espécies diferentes na mesma casa, muitas dúvidas vem à tona sobre uma boa convivência. Temos cachorros, gatos, pássaros, peixes, e em menor escala, ratos também, entre outros numa lista de 49 diferentes animais listados pelo IBAMA. 

No convívio humano, vamos para um outro nível de entendimento do nosso eu animal. As relações conceituais possíveis são infinitas e o fato de termos uma consciência, não significa que temos a real ciência do que nosso inconsciente está absorvendo, neste exato momento, por exemplo.

"Poder", o verbo e o objeto de desejo, "Saber", o verbo e o produto do conhecimento, são ferramentas da mente para sobreviver ou viver sob [ preencha com sua conveniência ] em tantas esferas de dominação, onde as palavras lavram e gozam de uma liberdade, utópica para nós, afinal, por mais que queiramos dominar discursos e os percursos da história, sempre existirá uma oportunidade para criar novos significados, novas estórias para hackear semânticas e curar novas visualizações de um mesmo glossário.

Vários pensadores, de Platão e Aristóteles a Francis Bacon ou Michel Foucault, defendem uma relação muito próxima entre as informações que constituem o saber e o poder decorrente dele. Por mais contraditório e paradoxal que possa parecer, mas em nossa sociedade, ser cidadão é também deter um poder, ou pelo menos visualizar o horizonte dos terrenos que temos para se empoderar. 

Porém, quais as imagens dessa paisagem chegam a nós? 
Quais pinturas de fato tivemos a oportunidade de pincelar? 
Que poder de fato podemos materializar em tempos de múltiplas relatividades e confusos fluxos de informação e influência? 
Estamos todos nascendo e se pondo ao mesmo sol?

Na natureza, separar animal "irracional" do "racional" as vezes soa até irônico:


A literalidade da exposição de Ricardo Franco com curadoria de Vinicius SA, se harmoniza com o conhecimento teórico implícito, proporcionando um espaço-tempo de visualização e inserção nos diversos recipientes pedagógicos de auto-reflexão sobre nossos atos e autos cotidianos. O corpo simbólico das obras corporificam terrenos táteis de aproximação entre o indivíduo e sua condição sistemática inata de trocas injustas com a sociedade e consigo mesmo. A experiência da expo é o oposto da fuga prematura e condicionada que temos vivido ao declarar guerras quentes com o mundo externo enquanto o próprio, em paz, já te domesticou por dentro.

 

 

Mal ou bem, somos um animal.Bem e mal, temos uma mente.Mal bem, bem mal.Não há um, nem outro: criamos bens e males também.Mas, quais são os seus meios?MANIFESTE-SE

 

•••––––––Poesia: Camila Jatobá (criada de um texto de 26/06/2016)Texto: BoréEdição: Boré